Sempre achei meio careta abrir um assunto pela sua definição de dicionário. E hoje, após vinte anos de aulas e seminários, consegui responder de uma forma nova aquela clássica pergunta “professor, como se define criatividade?”.
Vale a pena relatar aqui o que chamo de construção de uma definição interna e individual, sob medida, pois os leitores poderão usar o processo, bastando para tal estar em um grupo de no mínimo 15 pessoas.
Para defender o método, começo explicando que cada um de nós tem o seu próprio banco de dados, único e personalíssimo. Ele será a base da construção de nossa definição, que usará a teoria das competências das redes, uma verdadeira nova ciência que surge, descrita por Steven Johnson no seu livro “Emergência”.
Afirma ele que o conhecimento adquirido por uma rede sempre suplanta a soma dos conhecimentos de cada uma das pessoas participantes, e que depois é compartilhado por todos. A experiência que descrevo aqui tem confirmado o fato.
Ao iniciar o seminário, peço que cada uma das pessoas diga o que chamo de “uma palavra vizinha da criatividade”. O conjunto das palavras, quando pronto, terá um valor que virá também da energia que se instala na sala, durante o processo de “ouvir e lembrar”. Cada palavra dita em alta voz, soa com significado diferente para cada um dos presentes, em função do “banco de dados” ser individual. As associações então vêm como se houvesse uma reverberação mental, e naquela hora sempre sinto que isso está ocorrendo, de algum jeito.
Aqui trago como exemplo o conjunto de palavras um grupo recente, mas adianto que pouco ele poderá ajudar na construção de uma definição – esta necessita do processo com a mágica do improviso, ao vivo. Mas vejam o que cerca de vinte pessoas disseram: empreendedorismo, busca, iniciativa, curiosidade, liberdade, diferencial, comunicação, confiança, simplicidade, visão, ousadia, frustração, demonstração, participação, caminho, abertura, inovação, mudança, intuição e sucesso.
Como sempre acontece, neste caso algumas terão dito mais de uma palavra, e outras, nenhuma. Ao final, tudo posto num flip-chart, peço para observarem as palavras cuidadosamente e meditarem sobre os denominadores comuns do conjunto, ou o que chamo de “guarda-chuva” de coerência que se percebe existir ali.
O passo seguinte é quase automático. Cada um percebe que, para si, o assunto naqueles momentos acaba de ganhar um nível diferente de significado. A constatação contém o sentimento de um novo ganho de conhecimento, e chega a ser alegre.
Pronto, digo a todos, vocês estão como quem subiu pela primeira vez num mirante e viram de lá um vale que já conheciam de outro ponto de vista. Vocês acabam de ganhar uma nova perspectiva, mas não pela descrição, e sim pela vivência. Na prática é o mesmo que, vez de receber uma definição feita, construir sua definição. Que, assim, nunca será esquecida, pois foi ganha pelo sentimento, não pelo raciocínio.
Caros leitores, nada pretendo mais que sugerir que vocês façam essa experiência – juro que é surpreendente, e que vale a pena. Construam sua definição de criatividade. Como dizia um velho anúncio, é satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.
José Predebon
Sobre Pedrebon
Aos 79 anos de idade, José Predebon se notabiliza como um dos maiores pensadores sobre o uso da inovação e da criatividade na comunicação e compartilha seus conhecimentos em cursos livres regulares em diversas instituições de ensino como: Faculdade Trevisan, Fundace-USP, Instituto Mauá de Tecnologia, onde criou e dirigiu um Departamento de Criatividade de 1993 a 1996.
Na área da criação publicitária, Predebon atuou até o ano de 1992 e acumulou diversos prêmios durante sua carreira, entre os quais um Leão de Ouro em Cannes.
Nos últimos anos tem se notabilizado pela publicação de livros que fazem grande sucesso entre estudantes e profissionais de publicidade, administração e marketing.